Acredito que as relações humanas
não terminam no conflito, e sim na indiferença. Não existe conflito quando se é indiferente com algo. Atitudes, pessoas ou seja lá o que for, só se
tornam motivo de alguma briga em quem as percebe. Só se é possível entrar em
discussão, por exemplo, com alguém que está disposto a ouvir. Caso contrário,
só se ignora e nada mais. Fala-se sozinho. É assim que as pessoas lidam com a maior parte
das outras, ainda mais dentro de um ambiente urbano, onde milhões e milhões se
amontoam num pedaço de selva de pedra, aos milhares a cada quilômetro quadrado,
mas ignoram-se nomes e fisionomias vistas diariamente por cada um em cada
situação cotidiana. Hoje mesmo, pensei sobre isso depois de passar ao lado de
duas pessoas que conversavam perto do gramado da faculdade. Era um rapaz e uma
moça, não daria mais de vinte anos a nenhum dos dois. Ao passarem do meu lado,
uma frase solta me chamou a atenção: - comemorei mais a morte da minha mãe do
que minha passagem no vestibular.
O que isso me fez mesmo pensar?
Primeiro, evidentemente, uma frase solta diz muito pouco sobre qualquer coisa e
seria preciso muita imaginação para elaborar qualquer coisa sobre isso. Ele poderia
estar falando de qualquer coisa, literalmente. A frase é impactante, claro, mas
e daí? Eu poderia dizer que vou matar alguém sem ter a intenção de assassinar,
de fato, seja lá quem for. O que me chamou a atenção, de verdade, foi
justamente a minha indiferença diante disso. São desconhecidos, e como não
havia contexto para a frase as possibilidades várias de interpretação me
fizeram ignorá-la. Não conheço o sujeito, provavelmente não me lembro mais de
sua fisionomia. Muito menos a “mãe” que ele citou na frase. Talvez se fossemos
próximos eu ou entenderia de cara que era uma brincadeira, ou então me chocaria
com tamanha insensibilidade perante a morte de alguém.
Ocorre algo similar com questões
morais. Um dia que fui a uma farmácia, por exemplo. Nunca entendi o porquê de
as escovas de dente estarem logo ali onde estavam, mas queria comprar uma e lá
fui e vi uma jovem. Devia ter seus vinte e cinco, vinte e seis anos. Ela pegava,
nunca saberei se para comprar ou apenas movida pela curiosidade – a bem da
verdade, nem me interessa – uma bisnaga do gel K.Y., lubrificante íntimo também
usado para a prática do sexo anal. Ao me ver, ela abaixa a cabeça e corre. Move-se
entre as prateleiras tentando não me ver e sai da loja. Na época disse para mim mesmo que quem se
julgou foi ela – repito, não tenho nada a ver com o que ela faz com o próprio
cu- e saiu por uma vergonha originada desse auto-julgamento. Já penso de outra
forma, passado o tempo. Podia ser isso, mas também poderia ser outra coisa. Ela
poderia ter me confundido com outra pessoa. Talvez me conhecesse, de verdade,
ou através de uma rede social ou mesmo ter amigos em comum. Ou a “fuga” tivesse
sido uma impressão minha na hora.
Saber ou não saber o que uma
pessoa desconhecida faz acaba fazendo tão pouca diferença que, em alguns
momentos, chego a achar graça de situações desse tipo. É como a experiência se
parar uns minutos na porta de um prostíbulo qualquer. No mar de pessoas do
centro da cidade, um homem desce aquelas escadas mal iluminadas de cabeça baixa
e olha os dois lados da rua antes de prosseguir. Acelera o passo e mistura na
multidão. Ensaia desculpas para o caso de ser surpreendido por alguém
conhecido, embora, racionalmente pensando, a chance disso acontecer é a cada
dia menor. Até para se encarar um desconhecido se perde a graça, nesses
momentos.
Mas a fronteira entre um
desconhecido e um conhecido, no mundo moderno, é tênue. Já não se fazem mais
espaços de socialização como os da infância dos meus tios, por exemplo, onde
todos acabavam conhecendo todos, cresciam juntos, freqüentavam as mesmas casas.
Eram íntimos com mais pessoas. Creio que hoje conheçamos centenas de pessoas a
mais que as pessoas desse contexto conheciam, mas somos íntimos de bem menos. Um
caso para ilustrar. Lembrei de um caso que me contaram de um sujeito que viu um
colega de escola, uma grande escola do centro da cidade, saindo de um cinema
pornô. Um daqueles com cabines individuais. O reconheceu por conta de serem da
mesma série e tê-lo visto frequentemente nos corredores. Contou isso a amigos
mais próximos e comentavam entre si diversos nomes que iam chamá-lo quando
tivessem oportunidade. Nunca o fizeram. Por quê? Jamais tiveram a coragem de
fazê-lo, pois o gelo que existe entre as pessoas antes que algum nível de
intimidade o atenue era gigante naquele momento. Era tão grande quanto em
relação à maior parte das pessoas. Não
importava se o conheciam, se não sentiam conhecer o bastante. É o que mais
acontece: as pessoas se conhecem e se desconhecem com uma extrema facilidade, e
esse “conhecer” é totalmente matizado.
Vejo também que é dessa forma que
se pode constatar que uma relação humana – seja de qual natureza for – chegou
ao final. Defendo que uma relação humana não acaba quando ambos desejam a morte
um do outro, brigam diariamente ou algo assim.
Termina quando um envolvido passa a não saber que o outro existe de tal
forma que tudo o que essa pessoa fizer não será mais notada, tal como situações
dessas do cotidiano, dessas que esquecemos para não enlouquecermos. Daí o tempo
passa e se esquece, aos poucos, praticamente tudo que remeta a pessoa sem
sentir qualquer coisa com isso. Foi o que me ocorreu ao pensar num fato, que
pode parecer sinistro aos ouvidos de algumas pessoas, de que há uns dez anos
fui a uma festa no mesmo dia em que recebi a notícia do falecimento de meu avô
paterno. Guardo ótimas lembranças da festa, e nenhuma dele.
Não imagino situações similares
acontecendo num contexto em que as pessoas são mais próximas. Não é o caso da
atualidade, ao menos na maioria das vezes. Vemos acontecimentos bizarros o
tempo todo, e o que acontece? Não acontece nada. Refiro-me a nós, internamente. Seguimos e
ignoramos essas coisas como uma espécie de defesa mental dentro de um lugar
onde vemos e ouvimos coisa bem pior diariamente. Perceber e enlouquecer seriam
sinônimos.
Imagem:Iholback