sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

"Ri mais com a morte da minha mãe do que quando passei no vestibular"


Acredito que as relações humanas não terminam no conflito, e sim na indiferença. Não existe  conflito quando se é indiferente com algo.  Atitudes, pessoas ou seja lá o que for, só se tornam motivo de alguma briga em quem as percebe. Só se é possível entrar em discussão, por exemplo, com alguém que está disposto a ouvir. Caso contrário, só se ignora e nada mais. Fala-se sozinho.  É assim que as pessoas lidam com a maior parte das outras, ainda mais dentro de um ambiente urbano, onde milhões e milhões se amontoam num pedaço de selva de pedra, aos milhares a cada quilômetro quadrado, mas ignoram-se nomes e fisionomias vistas diariamente por cada um em cada situação cotidiana. Hoje mesmo, pensei sobre isso depois de passar ao lado de duas pessoas que conversavam perto do gramado da faculdade. Era um rapaz e uma moça, não daria mais de vinte anos a nenhum dos dois. Ao passarem do meu lado, uma frase solta me chamou a atenção: - comemorei mais a morte da minha mãe do que minha passagem no vestibular. 

  
O que isso me fez mesmo pensar? Primeiro, evidentemente, uma frase solta diz muito pouco sobre qualquer coisa e seria preciso muita imaginação para elaborar qualquer coisa sobre isso. Ele poderia estar falando de qualquer coisa, literalmente. A frase é impactante, claro, mas e daí? Eu poderia dizer que vou matar alguém sem ter a intenção de assassinar, de fato, seja lá quem for. O que me chamou a atenção, de verdade, foi justamente a minha indiferença diante disso. São desconhecidos, e como não havia contexto para a frase as possibilidades várias de interpretação me fizeram ignorá-la. Não conheço o sujeito, provavelmente não me lembro mais de sua fisionomia. Muito menos a “mãe” que ele citou na frase. Talvez se fossemos próximos eu ou entenderia de cara que era uma brincadeira, ou então me chocaria com tamanha insensibilidade perante a morte de alguém.
Ocorre algo similar com questões morais. Um dia que fui a uma farmácia, por exemplo. Nunca entendi o porquê de as escovas de dente estarem logo ali onde estavam, mas queria comprar uma e lá fui e vi uma jovem. Devia ter seus vinte e cinco, vinte e seis anos. Ela pegava, nunca saberei se para comprar ou apenas movida pela curiosidade – a bem da verdade, nem me interessa – uma bisnaga do gel K.Y., lubrificante íntimo também usado para a prática do sexo anal. Ao me ver, ela abaixa a cabeça e corre. Move-se entre as prateleiras tentando não me ver e sai da loja.  Na época disse para mim mesmo que quem se julgou foi ela – repito, não tenho nada a ver com o que ela faz com o próprio cu- e saiu por uma vergonha originada desse auto-julgamento. Já penso de outra forma, passado o tempo. Podia ser isso, mas também poderia ser outra coisa. Ela poderia ter me confundido com outra pessoa. Talvez me conhecesse, de verdade, ou através de uma rede social ou mesmo ter amigos em comum. Ou a “fuga” tivesse sido uma impressão minha na hora.
Saber ou não saber o que uma pessoa desconhecida faz acaba fazendo tão pouca diferença que, em alguns momentos, chego a achar graça de situações desse tipo. É como a experiência se parar uns minutos na porta de um prostíbulo qualquer. No mar de pessoas do centro da cidade, um homem desce aquelas escadas mal iluminadas de cabeça baixa e olha os dois lados da rua antes de prosseguir. Acelera o passo e mistura na multidão. Ensaia desculpas para o caso de ser surpreendido por alguém conhecido, embora, racionalmente pensando, a chance disso acontecer é a cada dia menor. Até para se encarar um desconhecido se perde a graça, nesses momentos.
Mas a fronteira entre um desconhecido e um conhecido, no mundo moderno, é tênue. Já não se fazem mais espaços de socialização como os da infância dos meus tios, por exemplo, onde todos acabavam conhecendo todos, cresciam juntos, freqüentavam as mesmas casas. Eram íntimos com mais pessoas. Creio que hoje conheçamos centenas de pessoas a mais que as pessoas desse contexto conheciam, mas somos íntimos de bem menos. Um caso para ilustrar. Lembrei de um caso que me contaram de um sujeito que viu um colega de escola, uma grande escola do centro da cidade, saindo de um cinema pornô. Um daqueles com cabines individuais. O reconheceu por conta de serem da mesma série e tê-lo visto frequentemente nos corredores. Contou isso a amigos mais próximos e comentavam entre si diversos nomes que iam chamá-lo quando tivessem oportunidade. Nunca o fizeram. Por quê? Jamais tiveram a coragem de fazê-lo, pois o gelo que existe entre as pessoas antes que algum nível de intimidade o atenue era gigante naquele momento. Era tão grande quanto em relação à maior parte das pessoas.  Não importava se o conheciam, se não sentiam conhecer o bastante. É o que mais acontece: as pessoas se conhecem e se desconhecem com uma extrema facilidade, e esse “conhecer” é totalmente matizado.
Vejo também que é dessa forma que se pode constatar que uma relação humana – seja de qual natureza for – chegou ao final. Defendo que uma relação humana não acaba quando ambos desejam a morte um do outro, brigam diariamente ou algo assim.  Termina quando um envolvido passa a não saber que o outro existe de tal forma que tudo o que essa pessoa fizer não será mais notada, tal como situações dessas do cotidiano, dessas que esquecemos para não enlouquecermos. Daí o tempo passa e se esquece, aos poucos, praticamente tudo que remeta a pessoa sem sentir qualquer coisa com isso. Foi o que me ocorreu ao pensar num fato, que pode parecer sinistro aos ouvidos de algumas pessoas, de que há uns dez anos fui a uma festa no mesmo dia em que recebi a notícia do falecimento de meu avô paterno. Guardo ótimas lembranças da festa, e nenhuma dele.
Não imagino situações similares acontecendo num contexto em que as pessoas são mais próximas. Não é o caso da atualidade, ao menos na maioria das vezes. Vemos acontecimentos bizarros o tempo todo, e o que acontece? Não acontece nada.  Refiro-me a nós, internamente. Seguimos e ignoramos essas coisas como uma espécie de defesa mental dentro de um lugar onde vemos e ouvimos coisa bem pior diariamente. Perceber e enlouquecer seriam sinônimos.

Imagem:Iholback